Subiu o balão, num mergulho nas estrelas levou o olhar do menino. Deslizava noite à dentro em direção à lua, mundo restrito do pequeno que em sonho era rei. Com sua tocha e cores fez brilhar o dia no céu de fumaça, tomou de assalto um sorriso banguelo do miúdo. Achou, o pequeno, que fosse o balão uma estrela cadente, astro que traria seus desejos à vida e paz à seu pobre reino. Sem titubear, fechou os olhos firmemente, agarrou à mão esquerda da mãe, que sentada amamentava o filho mais novo e sussurrou:
- "Ave mãe dos céus de poeira, traga o pão, traga a água, traga a serenidade do sono e a vida pro sonhos daqueles que se esqueceram de sonhar. Traga pra mamãe a casa, felicidade e a paz que os homens cinzas tiraram".
Enquanto sussurrava, sentiu o acariciar do sereno e percebeu na mãe um bocejo de quem tinha mais do que o sono ou o cansaço, tinha no olhar da jovem mulher a velhice causada pelo sofrer que o mundo lhe ofertou. Tinha no rosto o brilho detalhado da lua, como fosse uma miniatura do mundo do pequeno rei, sua pele negra trazia a beleza da noite mais perto do menino, cada expressão uma constelação, cada trança que não tratada se desfazia lhe mostrava um desenho de vento, de nuvem. Mais uma vez estava o menino ludibriado pelo o que os olhos lhe diziam. Tentou o miúdo exclamar algo, mas tragou a voz . Não havia ao conhecimento do prematuro palavras que contemplassem aquele momento. Levantou levemente seus ossos e pele, e tocou o rosto da mãe, como se fosse a brisa da manhã acordando as folhas em cada copa de árvore. Tocou seus lábios na lua tatuada na face da mãe e a acordou.
Trouxe-a pro mundo e viu escorrer uma estrela cadente de seus olhos. Um silêncio profundo e quente tomou os dois que se fitaram por alguns segundos. Não sabia a mulher o que fazer ante uma atitude tão bela e madura do pequeno, que brincava com o pouco e o pouco comia. Não entendia de onde brotava o amor que o miúdo lhe oferecia, viviam sem nada, no lixo, cada vez mais destruídos pela desatenção daqueles que por ali passavam.
Num abraço ligeiro o menino foi tomado junto ao peito, ao lado do caçula, um soluço da mãe lhe esfriou o estômago, mas logo voltou-se aos céus. Observava o balão se incendiar e seus sonhos virarem cinza, estremeceu. Lavou o rosto com lágrimas, que rapidamente foram enxugadas pela mãe que nada disse. Uma revolta encheu o peito do pequeno rei, que ao ver o balão despencar em brasa lembrou-se do dragão de aço que engoliu o barraco onde moravam. Deixados ali à esmo, sem nada à dizer, adormeceram sob o luar.
Pela manhã, o primeiro abrir de olhos da mãe lhe mostrou o miúdo acocorado, atento e silencioso observando as carruagens de metal, os cavalos de aço que pisoteavam a tranquilidade do amanhecer. Perguntou o que o menino fazia ali parado. Respondeu-lhe o pequeno rei com a serenidade fria de quem se preparava para a guerra: -Não faço nada mamãe!
Saltou do papelão e com sua inocência de criança passou ligeiro por entre os carros e motos que ali estavam, correu de braços abertos enxotando os pombos que se juntaram na praça em frente. Sabia o quanto era pequeno pra lutar só, mas estava decidido a matar dragões de aço, de terno e gravata, de olhares tortos e rabiados. Sabia que o tempo lhe pedia ações, então juntou-se à outros reis, que mascarados surrupiavam impostos nos faróis, nos grandes centros, juntaram-se à outros que faziam de um saco de cola seu cajado, das calçadas seus tronos, dos viadutos seus castelos. Juntaram-se os pobres reis que o descaso não coroou, juntaram-se numa urgência de vida, num passeio pelo esquecimento do sofrer e nunca mais foram crianças.