terça-feira, 10 de novembro de 2009

O balão, o Menino e seus dragões

Subiu o balão, num mergulho nas estrelas levou o olhar do menino. Deslizava noite à dentro em direção à lua, mundo restrito do pequeno que em sonho era rei. Com sua tocha e cores fez brilhar o dia no céu de fumaça, tomou de assalto um sorriso banguelo do miúdo. Achou, o pequeno, que fosse o balão uma estrela cadente, astro que traria seus desejos à vida e paz à seu pobre reino. Sem titubear, fechou os olhos firmemente, agarrou à mão esquerda da mãe, que sentada amamentava o filho mais novo e sussurrou:
- "Ave mãe dos céus de poeira, traga o pão, traga a água, traga a serenidade do sono e a vida pro sonhos daqueles que se esqueceram de sonhar. Traga pra mamãe a casa, felicidade e a paz que os homens cinzas tiraram".
Enquanto sussurrava, sentiu o acariciar do sereno e percebeu na mãe um bocejo de quem tinha mais do que o sono ou o cansaço, tinha no olhar da jovem mulher a velhice causada pelo sofrer que o mundo lhe ofertou. Tinha no rosto o brilho detalhado da lua, como fosse uma miniatura do mundo do pequeno rei, sua pele negra trazia a beleza da noite mais perto do menino, cada expressão uma constelação, cada trança que não tratada se desfazia lhe mostrava um desenho de vento, de nuvem. Mais uma vez estava o menino ludibriado pelo o que os olhos lhe diziam. Tentou o miúdo exclamar algo, mas tragou a voz . Não havia ao conhecimento do prematuro palavras que contemplassem aquele momento. Levantou levemente seus ossos e pele, e tocou o rosto da mãe, como se fosse a brisa da manhã acordando as folhas em cada copa de árvore. Tocou seus lábios na lua tatuada na face da mãe e a acordou.
Trouxe-a pro mundo e viu escorrer uma estrela cadente de seus olhos. Um silêncio profundo e quente tomou os dois que se fitaram por alguns segundos. Não sabia a mulher o que fazer ante uma atitude tão bela e madura do pequeno, que brincava com o pouco e o pouco comia. Não entendia de onde brotava o amor que o miúdo lhe oferecia, viviam sem nada, no lixo, cada vez mais destruídos pela desatenção daqueles que por ali passavam.
Num abraço ligeiro o menino foi tomado junto ao peito, ao lado do caçula, um soluço da mãe lhe esfriou o estômago, mas logo voltou-se aos céus. Observava o balão se incendiar e seus sonhos virarem cinza, estremeceu. Lavou o rosto com lágrimas, que rapidamente foram enxugadas pela mãe que nada disse. Uma revolta encheu o peito do pequeno rei, que ao ver o balão despencar em brasa lembrou-se do dragão de aço que engoliu o barraco onde moravam. Deixados ali à esmo, sem nada à dizer, adormeceram sob o luar.
Pela manhã, o primeiro abrir de olhos da mãe lhe mostrou o miúdo acocorado, atento e silencioso observando as carruagens de metal, os cavalos de aço que pisoteavam a tranquilidade do amanhecer. Perguntou o que o menino fazia ali parado. Respondeu-lhe o pequeno rei com a serenidade fria de quem se preparava para a guerra: -Não faço nada mamãe!
Saltou do papelão e com sua inocência de criança passou ligeiro por entre os carros e motos que ali estavam, correu de braços abertos enxotando os pombos que se juntaram na praça em frente. Sabia o quanto era pequeno pra lutar só, mas estava decidido a matar dragões de aço, de terno e gravata, de olhares tortos e rabiados. Sabia que o tempo lhe pedia ações, então juntou-se à outros reis, que mascarados surrupiavam impostos nos faróis, nos grandes centros, juntaram-se à outros que faziam de um saco de cola seu cajado, das calçadas seus tronos, dos viadutos seus castelos. Juntaram-se os pobres reis que o descaso não coroou, juntaram-se numa urgência de vida, num passeio pelo esquecimento do sofrer e nunca mais foram crianças.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

1 minuto é muito pouco

Passou tão rápido que não percebi
alguém gritou e não ouvi
alguém morreu
alguém nasceu
alguém chorou
nossos olhos se viram
e alguém mais morreu
uma nova assinatura
um novo despejo
alguém gozou
li uma poesia
uma nova lei se aprovou
nossos lábios se tocaram
e o minuto se passou
tantas coisas
tantas dores
que o minuto contemplou
nos planos
meses e anos
o futuro!
Horas pra executar
dias pra viver
mas em 1 minuto é que se faz o agora
e o que virá trará a certeza
de outros dias
de outras horas
de outros minutos...

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

É Terno!

Foi num abraço estreito
que seu suspiro me ensinou

Aquele amor profundo
que como rosa desabrochou

Tornou morada o peito
e feito rocha se eternizou...

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Do Caos

Ouço o caos surgindo
em seus redemoinhos de metas
a vida desfalece
a frieza da verba
congela até os sonhos mais quentes
certezas vãs são consolidadas
o sentido dos verbos, fragilizados
se dissipam como um fio de fumaça que
arrisca vôo em cada tragada de um cigarro
em cada bule de café, em cada brasa
então dizem verdades
proferem razões
tão mudas quanto vazias
dizem querer
dizem amar
dizem sonhar
da língua pra fora
toda palavra tateia a veracidade
mas é tudo mentira
uma falsa sensação de bem estar se instaura
mas da língua pra dentro a fome continua
nenhuma palavra me alimenta
desses "agentes da ordem"
nenhuma afirmação preenche
o vazio que cresce em meu peito
então sigo contra a maré
conjugo verbos cheios de mim
e se eles temem o erro
me reservo ao direito de errar
de aprender
de viver
sem manuais
vou escrevendo em cada manhã
um novo raiar de sol
ou então
um novo poema de um filho do caos...

terça-feira, 29 de setembro de 2009

A menina dos acasos...

Veio de longe
do alto do morro
desceu pro meu quintal
maracatuzando sua meninice
trançou olhares
bordou o infinito em tua retina
no seu universo me fez presa

Linda e de voz serena
soprou belezas em meus ouvidos
foram transes, foram hipnoses
delírios e devaneios
goteirou felicidade onde só havia pranto
eternizou cada momento
cavou e semeou reticências

Dama da noite
preencheu-me com teu aroma
suas mãos de pétalas me guiavam
na cadência de suspiros e prosas
me trouxe o ar pra mergulhar
me trouxe paz
e partiu...

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Sampacidez

Pobre São Paulo terra de ninguém
mar de arranha-céu e pés na lama
da fuligem à garganta
da libido ao caos

Caótica lua acinzentada

Rubro sol,
pingando o sangue derramado em seus cafezais

Seus sons podam meus sonhos
terra da garoa, terra do pranto, terra da lágrima
seus santos não ouvem as preces das lavandeiras
seus rios, suas veias de represa, refletem sua saúde, sua verdade...

Pobre São Paulo
mãe dos meninos que dormem em tuas calçadas
Dona das ruas onde carros disputam com carroças carregadas de papel, de lixo...

Tuas meninas periferias, grande São Paulo. Se oferecem nas esquinas do seu centro, nas esquinas dos seus seios murchos, capitalizados. Pobres meninas se prostituindo como quem segue a grande nave mãe dos bordéis.

Seu riso néon, grande senzala, pedaço do mundo, se perde no zumbir dos açoites que teu povo sofre diariamente, o grilhão do teu relógio acelerado, puta São Paulo, não só corrompe, como prende, como fere, como mata diariamente.

Quem bebe de tua água conhece bem a acidez no estômago. A fome compartilha a necessidade de te engolir, cáquito de chumbo e concreto, torta e oca de humanidade, grande São Paulo, onde só as antenas enraízam-se, onde só as antenas tem morada, onde só as antenas encontram o céu..

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Monólogo

Não bastasse a ingenuidade do saber,
seguem risos soprados com medo
rios de calafrios no instante em que o dia se faz, se acaba
segue a dislexia lendo a vida em notas frias, notas mortas
resta assim o medo da morte, escondendo-se na intensidade do viver, do não deixar pra amanhã...
Resta assim a incompreensão do lar, o descaso social, a vida sempre às margens...
Mas noite após noite o dia morre, levando com ele uma falsa sensação de vida.
Amanhecerá novamente, novos sonhos acordarão, novos medos, novas falhas no existir
O mundo continuará girando sua roda da fortuna, seu alavancar de caça-níquel
e eu... eu continuarei a monologar minhas meias verdades diante dessa mentira inteira, semearei sonhos mesmo que essas sementes só existam em mim.